Mae West

Musas da Zingu

SENSUAL, IRREVERENTE, DONA DO SEU DESTINO

Nenhum compêndio comprova, mas, provavelmente, a palavra Musa – estilo Perua – começou a ser esculpida no dia 17 de agosto de 1893.

Nascia Mary Jane, filha de Matilda e John. Para os íntimos: Mae West. E foram muitos os íntimos.

Desde pequena,  Mary “torceu o pepino” e mudou o texto original. Chamada pelos pais e amigos de May, deixou claro que o correto era Mae. E explicou: o “Y” é para baixo e o “E” é para cima.

Esse dia marcou a vinda daquela que seria chamada “a mulher mais sexy do século”. A mulher que daria “o pontapé inicial” para a emancipação feminina, no campo social,  pessoal e principalmente sexual.

O pai de Mae, John, tinha sido lutador de boxe e sempre levava sua pequena garota ao ginásio onde seus amigos treinavam. Dizem que foi já a partir daí, que  Mae  West  passou a se interessar por homens musculosos.

Com sete anos, a mãe de Mae inscreveu a filha num concurso de canto. Mae recebeu a letra da música que ia cantar, não gostou de algumas palavras, trocou o texto e ganhou vários prêmios.

Desde pequena,  Mae  freqüentou e atuou no vaudeville (teatro de revista)  A malícia estava no ar e nos textos, e a adolescente Mae sentiu que estava em casa.  Mae viajava muito, tinha problemas com os pais. Fácil de resolver, pensou: casou com Frank Wallace, um ator da companhia, ele com 17 anos.

Com irreverência e descontração fora dos padrões da época, Mae fazia grande sucesso no vaudeville. Além de interpretar papéis “apimentados”, sempre explorando a sensualidade e o sarcasmo, ela criava esquetes só para ela e escrevia  todas as suas falas, sempre com forte conteúdo erótico. Em 1911, faturava 350 dólares por semana. Mae sempre “tomou o futuro” em suas mãos , buscando a carreira que pretendia ter, além de uma imagem marcante que aperfeiçoava espetáculo a espetáculo.

SEX

O impressionante sucesso no vaudeville não bastava. Mae queria mais. Sempre mais. Ela escreveu sua primeira peça, quebrando mais um tabu, pois esse universo – a dramaturgia –era dominada por homens. A peça era sobre uma prostituta de “coração mole”, chamada Marge L´amour. Mae usou um pseudônimo: Jane Mast. O primeiro nome sugerido para a peça: “O Albatroz”.

Albatroz? Nem pensar. A peça vai se chamar SEX,  decretou Mae.

Vamos nos situar. O ano é 1926. A palavra SEX numa tinha aparecido impressa em local público. Pior foi quando Mae exigiu que SEX enfeitasse a entrada do teatro com um letreiro luminoso. Os proprietários, claro, negaram.

Entre a platéia que lotou o teatro, muitos policiais. Assim que as cortinas baixaram, Mae foi presa. Passou 10 dias na cadeia. Dizem que sempre jantava com os guarda. Ao sair, teve que pagar multa de 500 dólares por “corromper a moral dos jovens”.

Mae pagou com um sorriso nos lábios. Finalmente, sabia: tinha encontrado o caminho, a face e o espírito da verdadeira Mae West.

SEX deu buchicho, trouxe dinheiro extra para a propaganda da peça e fez de Mae uma personalidade.

Sem perder um minuto,  Mae “colocou mais lenha na fogueira”. Aproveitando a fama (de sensual, mulher de vários amantes) que trazia de suas interpretações no vaudeville, gravou discos com músicas de cabaré. A esperta e talentosa Mae ronronava como uma “gata mansa”, e público ouvia e sentia que ela  “tinha vivido tudo o que cantava”.

DIAMOND LIL

 

Sempre disposta a se superar,  Mae West escreveu em 1928 a peça que tornou-se a sua marca registrada: Diamond Lil. A ação se passava em 1890, num bairro pobre de Nova York e contava a história de uma “bem sucedida” mulher de negócios. Lil tinha, também, um coração de ouro e muitos diamantes presenteados por seus admiradores. Qualquer semelhança com SEX, ou com a própria Mae, não era mera coincidência,

Em Diamond Lil, produzida por Mae, ela cunhou uma das suas famosas frases: “Venha me visitar uma hora dessas.”

Com Diamond Lil, finalmente,  Mae chegou à Broadway. A peça foi encenada 176 vezes. Fez turnês por vários estados e permaneceu em cartaz nos próximos 30 anos.

Com o sucesso, assédio dos fãs e da imprensa, a vida sexual de Mae sempre foi um “prato” disputado com ardor. Disseram que ela era amante de um gangster;  que em sua cama passou o músico Duke Ellington. Ele, negro. Ela, branquela.  Discreta, discretíssima em relação à sua vida pessoal, Mae calou a boca de uma imprensa afoita e preconceituosa dizendo: “Não sou um símbolo sexual. Sou uma personalidade sexual.”

O CINEMA

 

Era um sonho, mas Mãe esnobou por bom tempo o cinema sonoro. Ao primeiro convite da poderosa Paramount, ela disse um  cínico: “Vou pensar”.

No ano de 1932, a Paramount lhe recebeu de braços abertos. Em seu primeiro filme, “Night After Night” acontece outro dos  célebres diálogos de Mae . Quando a sua personagem, uma garota de programa,  chega ao hotel onde está hospedada, a recepcionista vê as jóias que ela exibe e exclama: “Deus, belos diamantes!”. Ao que, imediatamente, Mae responde: “Deus não teve nada a ver com isso”.

Outro momento delirante. Uma amiga de profissão pergunta a Mae: “Você acredita em amor à primeira vista?”. E Mae: “Não sei, mas economiza muito tempo.”

Na tela, além de liberal, sensual e sempre independente, Mae parecia um mulherão. Na verdade, tinha 1,52m de altura, que ela, como boa perua, compensava com um salto de 18 cm.

Os dois primeiros filmes de Mae  – Night After Night” e “Uma Mulher para Três” (She Done Him Wrong) fizeram tanto sucesso salvaram a Paramount da falência. No terceiro filme, “Nunca Fui Santa” (I’m no Angel) ela voltou a trabalhar com o galã Cary Grant.

Contam as fofocas que indo de carro para o set de filmagem, Mae pediu que o motorista parasse o carro imediatamente. E perguntou: “Quem é aquele homem? Aquele bonitão? É um homem assim que eu quero no meu próximo filme.” Assim nasceu a carreira cinematográfica de Cary Grant. Circularam boatos de um caso entre os dois…e  Mae sempre “na dela”.

Com o sucesso dos seus filmes: homens e mulheres a adoravam. Diziam: ela representa na tela o que acontece na realidade, no dia-a-dia, no coração e nos sonhos dos seus fãs.  Mae chegou ao maior salário da época para uma estrela de cinema: 300 mil dólares por filme.

PERSONALIDADE SEXUAL

 

Definida pelo escritor F. Scott Fitgerald como uma mulher com “infinita alegria de viver”, Mae West tornou-se um símbolo da emancipação sexual das mulheres. Segundo ela, uma mulher podia ter o mesmo apetite sexual de um homem. E garantia: isto é totalmente natural. Mais: que ela – ou qualquer outra mulher – podia viver um romance fora do casamento sem ser condenada por isso. E sugeria que, as vezes, a mulher podia e devia tomar a iniciativa. Isso em 1935. Mae não era mole, não!

A CENSURA E A VOLTA AO TEATRO

 

Se o público adorava os diálogos apimentados sempre escritos por Mae em seus filmes,  , os censoras da época a detestavam. E dá-lhe “tesoura”, em nome da moral e dos bons costumes.

Mae era de “pavio curto”. Voltou para o teatro.

Em 1954 expandiu suas atividades. Escreveu e encenou uma peça que revolucionou o padrão de espetáculos tão freqüentes na cidade de Las Vegas. Misturando diálogos cheios de malícia, Mae se cercou de uma dúzia de homens musculosos, tipo Mister América, vestindo sumários calções, praticamente seminus.  A peça – definiu Mae – era um convite explícito para que as mulheres da platéia pudessem “comer os rapazes com os olhos”, tal qual os homens faziam com as mulheres que se apresentavam em Vegas. “Mae and her Adonis!” bateu recordes de bilheteria. E rendeu mais um diálogo memorável.

Na peça, cercada de uma dúzia de homens musculosos, ela vira para um que está chegando e diz: Como vai, alto, moreno e musculoso? Ao que ele responde: Oh, srta. West, vou vestir o meu roupão. E ela ensina: Não se preocupe, um pouco de propaganda é sempre bom.

Mae estava de novo “em alta”. Com seus deliciosos e invejados 61 anos de idade.

PREOCUPADA COM A ATUAÇÃO

A curiosidade de público e imprensa sobre os muitos casos de amor de Mae – nunca expostos por ela publicamente – levou até uma amiga de Mae a questionar: “É verdade que você teve casos com todos aqueles homens da peça em Las Vegas?”. Ao que Mae, com aquele olhar malandro, sedutor e sempre dúbio, respondeu: “Tem coisas, garota, que nunca se perguntam a uma dama.”

Freqüentemente convidada para programas de rádio ou TV, Mae recebeu um entrevistador de TV em seu apartamento. Era a primeira vez que abriria ao público um pouco de sua intimidade.  O apresentador e seu câmera não pouparam detalhes do apartamento onde Mae morava, bem próximo dos estúdios da Paramout. Era o apartamento típico de uma Musa Perua:  superdecorado, cor bege predominando – para realçar a figura de Mãe, que adorava roupas escuras – ,  piano de cauda,  quadros relativamente  famosos e uma cama à Luis XV, com um enorme espelho no teto. O cioso repórter perguntou do espelho. Ao que, Mae respondeu: “Gosto sempre de ver como estou me saindo”.

Esse programa nunca foi ao ar.

Durante sua vida, carreira no teatro, cinema e showbiz, Mae West cunhou frases e diálogos que revelaram sua deliciosa personalidade. Algumas que separei:

– Qual é a sua altura?
– Dois metros e dezoito, respondeu o caubói.
– Vamos deixar os dois metros pra lá e tratar destes dezoito centímetros.

– “Claro que meu amante pode confiar em mim. Eu disse a ele que centenas já confiaram.”

“Ama o teu próximo – se ele for alto,moreno e bonitão, será muito mais fácil.”

“Uma mulher só precisa de quarto animais na vida:uma raposa no armário, um tigre na cama, um Jaguar na garagem e um burro para pagar tudo isso.”

Isso é uma arma em seu bolso ou você está feliz por me ver.

Já estive em mais colos do que um guardanapo.

Encontrei homens que não sabiam como beijar. Sempre achei tempo para ensiná-los.

“Entre dois pecados, eu escolho um que eu ainda não cometi”

“Garotas boas vão para o céu, as más vão para todo lugar”

 

“Eu mesma escrevi a história. É sobre uma menina que perdeu a reputação e jamais sentiu falta”.

 

 

Filmografia de Mae West

 

Night After Night

She Done Him Wrong

I’m no Angel

Belle of the Nineties

Goin’ to Town

Klondie Annie

Go West Youg Man

Every Day’s a Holiday

My Little Chickadee

The Heat’s On

Myra Breckinridge

Sextette

 

Mae West é texto produzido e publicado originalmente na revista Zingu  número 48, http://www.revistazingu.net/2011/08/musas-eternas-9

Leiam também a revista Zingu número 49, http://www.revistazingu.net/edicao-49 , que completa cinco anos de vida e homenageia o magnífico e talentoso diretor Walter Hugo Khouri e sua musa Lilian Lemmertz.

Mais cinema brasileiro na Zingu número 50, no ar, http://www.revistazingu.net/ , com homenagens ao ator galã Toni Cardi e à atriz Wilza Carla. Eu escrevo sobre “Uma Noite em 67”, documentário que foca sua atenção no Terceiro Festival de Música da Record.

 

Edu Jancz (pseudônimo de José Edward Janczukowicz – jornalista diplomado – MTB 10761)

edujancz@gmail.com

https://edujancz.wordpress.com/

http://flickr.com/photos/edujancz/

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Parabéns, Zingu, 5 anos de cinema brasileiro!

 

A Revista Zingu, em sua edição de número 49, comemora cinco anos de vida. Dedicados ao cinema brasileiro – não somente – e com foco no cinema paulista.

Esse grupo de garotos mantém essa publicação on-line com dedicação impar. Revisitaram com garra e imparcialidade os personagens – de maior ou menor porte – que construíram  o cinema paulista, em especial o cinema da Boca do Lixo.

Nesta edição de aniversário, A Zingu presta justa homenagem ao cineasta Walter Hugo Khouri e à sua musa Lilian Lemmertz. No link http://www.revistazingu.net/.

Há alguns meses, tive o prazer de ser convidado para participar dessa equipe maravilhosa. Nesta edição de aniversário, escrevo sobre Noite Vazia http://www.revistazingu.net/2011/09/noite-vazia   e o filme- farol Janela da Alma – http://www.revistazingu.net/2011/09/filme-farol-8 .

Passo a palavra ao editor da Zingu, Adilson Marcelino.

Carta ao Leitor

A Zingu! chega aos seus 5 anos de história.

Com profundo amor ao cinema brasileiro, sobretudo o popular, a equipe da Zingu! não mede esforços para trazer, a cada edição, um olhar crítico e respeitoso para filmografias, artistas e técnicos que fizeram a fazem a história do cinema nacional.

Nesses cinco anos, muitos desses personagens, que, injustamente, quase nunca tiveram muito espaço pela fortuna crítica, encontraram guarida na Zingu!, que sabe da importância de cada um deles para a construção da nossa identidade fílmica.

E mesmo os que sempre desfrutaram de respeito também por aqui passaram e passam, pois nós da Zingu!, ainda que façamos um recorte mais focalizado no cinema popular, sabemos que a história do cinema brasileiro não é estanque, são fluxos que ora se interagem, ora se repelem, mas sempre em movimento contínuo, por mais dificuldades que ela encontra em seu caminho.

A Zingu! é feita por puro amor, dedicação e respeito pelo cinema brasileiro, já que por aqui ninguém recebe um tostão sequer. E aí tanto vale para o editor como para os redatores fixos, colaboradores e convidados. É uma revista de equipe, como é o cinema.

Este ano de 2011 é muito especial, pois nem tínhamos acabado de sair da honrosa premiação com o Prêmio IBAC distinguido para a Zingu!, na categoria cinema, no final do ano passado, e já publicávamos a edição de aniversário de 4 anos em fevereiro com o grande cineasta Alfredo Sternheim – mudanças internas ocasionaram o adiamento daquela comemoração.

Daí que agora, em outubro – mês real de aniversário da revista – , publicamos a edição de 5 anos da Zingu! trazendo à cena dois artistas amados pela redação e da maior importância para a história do cinema brasileiro.

Com isso, apresentamos o dossiê duplo de aniversário: O Autor e a Musa – Walter Hugo Khouri e Lilian Lemmertz. Casamento perfeito entre cineasta e atriz e que rendeu momentos luminosos para a nossa cinematografia.

Esta edição 49 é comemorativa aos 5 anos da Zingu! e também aos 82 anos de nascimento de Walter Hugo Khouri (21/10/1929 – 27/06/2003) e aos 25 anos de morte de Lilian Lemmertz (15/06/1937 – 05/06/1986).

O dossiê duplo O Autor e a Musa – Walter Hugo Khouri e Lilian Lemmertz apresenta farto material com críticas de todos os filmes de Khouri e quase a totalidade dos filmes de Lilian (20 de 22), mais entrevistas, depoimentos, textos especiais e filmografia.

Esta edição 49 abre espaço também para as colunas tradicionais: a dublagem dos filmes; Janela da Alma; “Dedos de Deus”, o luar de Carlos Reichenbach; As Águas de Mauro por Carlos Alberto Mattos; e as musas Renata Sayuri, Aldine Muller, e toda uma constelação Khouriana.

Agradecemos a todos os redatores, colaboradores, convidados e leitores que sempre nos ajudam a construir a trajetória da Zingu! A participação de todos vocês é fundamental.

Tenham todos uma ótima leitura!

Adilson Marcelino
Editor-Chefe da Zingu!

 

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Gravidez

(Homenagem e releitura desta obra-prima da intelectual e constista/poeta maior de Osasco, Risomar Fasanaro. Publicada originalmente na revista Veredas número zero, Osasco, 1976.)

 por Risomar Fasanaro

  Sentiu vontade de escrever. Escrever tudo o que estava reprimido nela. Olhou demoradamente os jornais do dia empilhados … no chão. Perto da cama. Não, não queria escrever, na verdade não podia, queria ler,ler muito, até esquecer toda aquela angustia que a oprimia, e não conseguia mais esconder.

  O ventre crescia cada vez mais. Os seios tornavam-se sensíveis. Doiam ao mais leve toque. Diante do espelho era como se pudesse enxergar o que ali se passava. Milhões e milhões de células crescendo, se unindo, multiplicando. Um peso que crescia e se avolumava tanto que parecia querer explodir. Não podendo, remexiam-se sem parar na fila do ônibus, no açougue, na rua. Tinha medo que alguém pudesse perceber esses movimentos. Sentia raiva. Por que aquilo não se aquietava dentro dela?

  As vezes, ao contrário, era invadida por uma ternura muito grande. Alisava o ventre tentando adivinhar como seria. De que azul seriam seus olhos, de que forma veria o mundo quando surgisse?… Outras vezes, curvava-se e ficava ouvindo o som que vinha lá de dentro. Sentia-se tentada a pedir às pessoas que passavam para fazer o mesmo. Continha-se a tempo. O medo a dominava. Ninguém poderia perceber aquela gravidez. Começou a escolher melhor as roupas. Seriam gêmeos? Não. Eram milhares e milhares de filhos. Ela sabia, sentia isso.

  A barriga aumentando, e o que ali se aninhava passou a ser a totalidade de seus sonhos. Pensava nos pezinhos que teriam… nas mãozinhas, e sentia uma tristeza muito grande por precisar escondê-los. Pouco a pouco foi se acostumando com a idéia de que não havia apenas um, mas muitos que se mexiam, fervilhando no interior de suas paredes. Sentia-os banhados de sol, quando à tarde passeava entre as crianças no parque. Estremecia ao perceber que eles se encolhiam trêmulos, se falava com alguém ou lia os jornais.

  Certo dia, pela manhã, ao sair para comprar leite e pão, uma vizinha disse que engordara. Ficou desesperada, tão desesperada que quase esqueceu tudo sobre o balcão. Voltou para casa correndo, e diante do espelho apertou-se mais, muito mais, até quase perder o fôlego. A barriga crescia. Parecia inchada, inflamada carregando aquele fardo. O mais pesado que carregara durante toda a sua vida. Era como se ali guardasse os filhos de todos os homens. Não se enfaixasse bem, era perigoso escaparem, nascerem ali, aos borbotões, num parto ininterrupto, e nunca mais ela conseguiria fazer nada. Estaria para sempre perdida. Irremediavelmente perdida. Como conter tantos filhos? Eles cresceriam e invadiriam as casas, as lojas, as ruas, e ninguém conseguiria mais detê-los. Pensava nisso e enfaixava-se cada vez mais. Desde o princípio ela desconfiava. O enjôo ao conversar com as vizinhas, e aquelas tonturas… só poderia ser mesmo aquela estúpida gravidez.

  Nove, dez meses se passaram. Não mais saia de casa. Começou a ficar inquieta. Por que não nasciam, se ela os sabia vivos, agitando-se no ventre? Sentia-se cada vez mais só. Apenas a esperança de vê-los fora dela, alimentava sua solidão. Um dia soltaria aquelas amarras, seu corpo se romperia deixando que eles jorrassem. Invadissem os campos, as ruas, sem precisar escondê-lo de olhares soturnos.

  Muitos dias se passaram sem que a vissem… Uma vizinha notando sua ausência, foi procurá-la. Entrou e encontrou-a sentada num sofá descorado. Durante algum tempo ela apenas a olhou com um olhar baço, sem nada dizer – nenhuma palavra. Depois disso ninguém mais a viu. A casa fechada: não saia nem entrava ninguém. A mesma vizinha voltou, bateu à porta durante algum tempo e, como ninguém respondesse, tentou entrar. Não conseguindo, chamou as outras. Por fim a rua inteira arrombou e invadiu a casa.

 Encontraram-na sentada na poltrona, completamente imóvel. O olhar perdido na inutilidade do tempo. As mãos juntas. A direita unida à esquerda, como se uma buscasse na outra o apoio que não viera. Amedrontadas diante do quadro, chamaram a polícia, sempre melhor nesses casos, e que ao sair, laconicamente comunicou aos curiosos: “A mulher está morta”.

  Um médico foi chamado e confirmou o que o policial dissera, acrescentando que a criança também morrera. Essa notícia causou um horror muito grande entre as vizinhas. Não a da morte, mas a da gravidez. Ninguém nunca percebera nada. Aquela mulher que parecia tão bondosa, comentavam, se enfaixara tanto que matara o próprio filho sufocado.

  O médico legista, após a autópsia, muito confuso procurou o diretor do hospital para onde o corpo fora transportado e narrou o estranho caso daquela mulher. Ao primeiro golpe do bisturi, seu ventre estufado deixara que transbordasse pela mesa de cirurgia se espalhando imediatamente pelo chão o seu segredo: palavras. Milhões e milhões de palavras, e apesar de tantas, não lhe fora possível salvar nenhuma. Estavam todas mortas. Mortas por estarem guardadas há tanto tempo. Mortas por sufocação.

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 Risomar Fasanaro, professora, contista e poeta. Nasceu no Recife, Pernambuco. Colabora com jornais e revistas da cidade, sempre presente nos acontecimentos Culturais. (1976)

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Água-Viva

(Homenagem e releitura. Conto publicado na revista VEREDAS, em Osasco, ano I, número zero, página 4,  em 1976)

Regina Célia Pereira

   A geladeira respira!    Pára, fica de saco cheio, bufa… deve ser de pena dela… depois da
televisão ligada, só pra falar, dos quatro vasinhos, é a única coisa viva por aqui. Deve estar
protestando: a casa é chata, nada de cerveja pra encher seu refrigerador, sacana!
   A dona vive meio de lembranças, disparos cardíacos, com breves intervalos de hilariante
apreciação do seriado da tarde “Jeannie é um Gênio”. No mais ela lembra, lembra e lembra…
só que não chora… No dia em que descobriu que a geladeira respirava, ficou contente. Deu até
três tapinhas muito amistosos nela e se foi mas eu sei que ela ficou contente.
   Hoje a dona chegou meio cedo, corro me esconder… se me pega aqui… me faz ficar sua amiga
e ela é tão besta! e feia, muito feia também, É claro que eu sou transparente, e vai ser muito
difícil ela prestar atenção numa água-viva. É miope e ainda sem óculos pelo apartamento. Ela veio
ao banheiro. Corro pela janela, escorrendo pela canaleta do prédio, subirei de novo mais tarde.
Gosto do banheiro pra passar a noite, e o dia é sossegado. Ela quase não vem aqui, só o necessário.
Acho que desistiu de se ver no espelho.
   Já conversei demais. Antes que me seque, vou me resguardar no vão da calçada.
   Puxa! A janela lá em cima ainda tem luz! Será que vou passar a noite com sede, olhando aquela
janela? Eu vou subir. E subo, cautelosamente… a dona está lá, meio ofegante… tentando pedir
ajuda, encostada na pia.
   MAS QUEM? QUEM VAI OUVIR A DONA. QUEM?
   Ela estremece devagarinho e cada vez mais devagar. E vai caindo, caindo… está tão esquisita…
e chego perto… e chego perto pra ver.
   A DONA ESTÁ MORTA! Não entendo nada disso, mas quem vai abrir a porta? Quem sentirá falta dela?
Quem vai procurar por ela por aqui? Quando virão?. Ai, meu mar! e logo no meu banheiro?
   Penso! É meu dever avisar os órfãos: a geladeira, a televisão, os quatro vasinhos. Esses últimos
vão viver muito tempo, assim precisando de cuidados… me ofereci mas me recusaram. Sou muito
salgada.
   Todos estão se comportando muito bem! Tiveram ataques de convulsão, é lógico. Gelê não queria mais
respirar… Tevê corria a imagem, e os vasinhos, coitados,  ficaram com as folhas todas eriçadas.
   Findo o pasmo e o espanto, a pergunta veio de todos nós:
   – Quem é quando sentirá falta dela? Tocarão a campainha?
   “- Não está, deve ter ido ao colégio…”
   “- Nunca está em casa, a canista!”
   “- Gozado, deve ter ido pra casa dos parentes, no interior. Ninguém atende!”
   “-Seu Zelador! Aqui no 21 mora uma moça, assim, assim, professora? Faz quase uma semana que está
faltando no colégio. Tem uns diários de classe com ela. Deixou algum recado?”
   “- Seu Deusdetti! Tá um cheiro intragável no nosso prédio. Precisa avisar o síndico. Deve ser
o esgoto!”
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Regina Célia Pereira da Silva Crepaldi nasceu em Rancharia, São Paulo. Professora de desenho.
Poeta e contista. (em 1976)

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Um amigo do Ceneart responde o texto “Meu amigo Wantuil Ataliba…”

Amigos,
Nasci em 1948, tinha, portanto 17 anos em 1965 e estudava no saudoso e estupendo Ceneart. Lembro-me vagamente desse episódio, mas lembro-me muito bem de professores como Emir Nogueira, com o qual muito aprendi sobre literatura e nossa língua. Ah. Eu tocava na fanfarra. Foi um dos períodos mais felizes de minha vida. Simples, pobre, mas rica de amizades, educação, pagtriotismo (a despeito do 31 de março/64).
Saudades.

José Carlos Alves de Oliveira
oliveira@sesisenaisp.org.br

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Meu amigo Wantuil Ataliba: o dia em que colocamos fogo no “Ateneu”

Conheci Wantuil Ataliba quando eu tinha uns 16 anos (ano de 1965). Estudávamos no CENEART um dos melhores colégios de Osasco. Era do estado: ensino público.

Me aproximei do Wantuil por ser um dos poucos rapazes de minha idade que tinha cultura, falava fluentemente de cinema, literatura – escrevia poemas com frequência – teatro, filosofia, direitos humanos, liberdade de expressão.

 Logo formamos uma dupla que, sempre que podia, debatia sobre as belas artes, músicas que ouvíamos e, claro, sobre o Brasil que naquele ano “comemorava” o primeiro ano de uma ditadura militar a que seríamos vergonhosamente submetidos por muitos anos.

 Não importa qual fosse a oportunidade, eu o o mestre Wantuil “planejávamos” uma forma criativa/diferente/inquieta de expressão. Foi por isso que, um dia, colocamos fogo no Ateneu, em plena sala de aula.

 O Ateneu, livro do escritor Raul Pompéia, publicado em 1888,  foi trabalho de final de curso proposto por nossa professora de Literatura Portuguesa. Eu, Wantuil e grupo nos reunimos. A idéia: nada de fazer um trabalho óbvio.  A nossa proposta: transformar o livro em  peça teatral e encená-la em sala de aula. Perfeito. Proposta votada, aprovada.

 Eu e o Wantuil nos encarregamos de transformar a obra de ficção em linguagem teatral. Os outros membros do grupo foram atrás da “produção da peça”. Distribuídos os papéis, fizemos a primeira leitura e  combinamos a estratégia para os ensaios: ninguém poderia descobrir o nosso plano. 

  A ESTRATÉGIA

 Decidimos transformar a sala de aula em um palco de teatro.

A  iluminação da peça foi decidida de forma criativa, visto a sala ter aquela iluminação “por igual” que em nada ajudava nossos objetivos. A solução:  alunos atores, munidos de lanternas, iluminariam os colegas de cena. 

O detalhe fundamental: como colocar fogo no Ateneu, se o grupo havia optado por trabalhar com um palco” nu”?  A resposta nasceu  em meio aos ensaios. No texto de Raul Pompéia, o personagem principal, Sérgio, conhece o colégio em que vai estudar. Enquanto houve recomendações de Aristarco, o diretor, funcionários estendem  uma faixa com a identificação “O Ateneu”.  Se  O Ateneu estava personificado, logo… Fácil, não?!

 Fácil? Pensem! Colocar fogo numa faixa de pano com mais de dois metros de comprimento, numa sala de aula com  carteiras, 40 alunos, a professora e a diretora que foi convidada a última hora?

Dia da apresentação. A primeira surpresa : as carteiras removidas, o público deslocado do seu conforto e o palco em forma de arena. Segunda surpresa, a iluminação. Por fim,  um  aluno munido de uma tocha coloca fogo na “faixa”. ( Américo, um menino estranho, que ficara na escola, obrigado pela família  é o principal suspeito do incêndio).

“O Ateneu está em chamas.” 

Não sei se pela qualidada da encenação – que eu e Wantuail comandamos – ou se pelas “surpresas”, a apresentação de um simples trabalho escolar foi um sucesso. Terminamos antes da hora do recreio. O “falatório correu solto”. A tal ponto que a professora  foi conversar comigo e  o Wantuil se  podíamos repetir a apresentação em outra sala que ela lecionava. Avisamos o resto do grupo e planejamos a segunda apresentação.  Até que alguém lembrou : como  colocar fogo no Ateneu ( a faixa)  se já o havíamos feito?

 Gente, foi uma correria. Um festival de improvisação e ajuda de muitos amigos. A faixa saiu. Meio tosca, mambembe, mas saiu. Encenamos o trabalho de literatura pela segunda vez. Com sucesso. E colocamos fogo no “Ateneu”!

 Sobre o meu amigo Wantuil Ataliba novos textos virão!

José Edward Janczukowicz
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Kiss Fm, 10 anos de rock and roll!

No próxima dia 13/7/2011, a Kiss Fm completará 10 anos no ar, tocando o melhor do bom e velho rock and roll!
A Kiss Fm nasceu  em 13/7/2001, não por acaso, Dia Mundial do Rock.
Para comemorar a data, a Kiss Fm prepara um  mega show.
Detalhes em: www.kissfm.com.br
Natural de São Paulo, a Kiss opera em 102,1 MHz. No Litoral Paulista, pode ser sintonizada  em 90,1 MHz.
Em Campinas, 107,9  MHz. E em Brasília, 94,1 MHz. Ou em todo o planeta pela internet.
Sua programação é voltada exclusivamente para o velho e bom rock and roll.
Como fã incondicional da música que nasceu oficialmente nos anos 50, escuto a Kiss Fm desde que  está
no ar. Tem programação variada, tocando o lado A e o lado B do rock and roll de todas as tribos.
É a rádio que mais toca Beatles.
É a rádio que abriu, sem demagogia,  espaço para a participação direta dos ouvintes.
É rádio que fez a  eleição das 500 + da Kiss, com as músicas preferidas pelos roqueiros cá da terrinha.
Parabenizo a Kiss Fm e todos os profissionais que nela atuam.
Sou testemunha auditiva de sua história.
Uma história construída com programação de excelente qualidade.  Deixar o rádio ou internet sintonizado na
Kiss Fm é, para mim, roqueiro de carteirinha,  ter um amigo fazendo programação exclusiva.
Com a Kiss Fm me sinto musicalmente em casa.

Parabéns, Kiss Fm. 10 anos de puro e bom velho rock and roll!

 Como filho de poloneses, Josef e Maria Janczukowicz, uso a saudação cantada nestas acasiões. Que a Kiss Fm viva “sto lat”.  Tradução: cem anos!

José Edward Janczukowicz – jornalista diplomado – MTB 10761
edujancz@gmail.com
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